Jorge Anthonio e Silva | |
| Partidos estão os vasos harmoniosos, | |
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Com Crítica da Razão Pura (1781) revelou aos segmentos da criação reflexionante a determinação causal e mecânica do reino da natureza, lendo ontologicamente o homem como ser imerso na realidade dos fenômenos, buscando decifrá-los. Legou daí estudos sobre a subjetividade do tempo e do espaço instâncias, sem as quais, o conhecimento inexiste. Com a Crítica da Razão Prática (1788) deu a conhecer uma teoria sobre o homem do querer moral, da vontade e da ação, e cuja determinação prática é a liberdade. Sua Crítica da Faculdade de Julgar (1790) forneceu as bases teóricas para o que se pode caracterizar como o criticismo romântico alemão e as fundações de uma nova Estética. Enquanto na França são erguidas barricadas e a guilhotina desce sobre cabeças coroadas, na Alemanha, sob a égide de Kant pesquisa-se a beleza, o passado, a moral; Goethe (1749/1832) completa suas Elegias Romanas e uma intelectualidade vibrante busca a unidade lingüística e cultural alemã com o ideal da Weltliteratur. Poesia, escultura, teatro, pintura, música e o gosto pelo belo foram copiosamente investigados ao tempo em que a Estética (Aisthesis = sensação, sentimento) se impunha como um segmento teórico individual de reflexão e como disciplina particular de conhecimento crítico-filosófico. A Baumgarten, deve-se essa individuação estabelecida já em 1750 com a obra Estética Acromática, tratado definidor da "ciência do belo". Em 1755 vêm à luz as reflexões acerca da imitação de obras gregas, de Winckelmann, fundador da arqueologia científica e da historiografia alemã, e em 1766, na mesma direção, Lessing examina a arte relacionalmente, ao publicar o Laocoonte, ou Sobre as fronteiras da Pintura e da Poesia, análise redimensionadora do pensamento estético e precursora da especificidade significativa de duas categorias de representação até então postas na mesma base, a música e as artes belas. Mas é sob Kant que ocorre um verdadeiro redimensionamento filosófico no Ocidente com resultados que incluem o trabalho reflexionante do médico, dramaturgo, poeta professor e editor, Johann Christoph Friedrich von Schiller (1759/1804). É, ao lado de Goethe a grande expressão no fértil contexto em que se inaugura um caráter inovador de análise da Estética e da crítica filosófica. Autor diferenciado entre seus pares, pode ser analisado na medida de seu teatro, de sua lírica e de sua postura crítico-filosófica. Refletindo a Estética como intermediação possível para a educação e o aprimoramento ético da humanidade, em 1784 publica O Teatro Considerado como Instituição Moral, opúsculo que propugna um estado conciliador entre os sentidos e a razão, tendo a arte teatral feito um meio para esse objetivo, com o concurso da catarse trágica que purifica as paixões e adensa a razão reorientando-a. A visão cosmológica do homem, como no mundo helênico, é outro evidente sinal na obra do pensador de Marbach. Para o homem grego a arte se presentificava na habilidade inteligente do fazer, na tekné, o que lhe garantia um princípio epifânico de totalidades entre si e o homem, pois que a transcendência da arte deveria estar em cada realizar empírico humano. Entende Schiller que a especialização constante do mundo objetivo fez desaparecer o senso de sacralidade antes impresso no viver comum, como entendida a habilidade para a realização de coisas, que tanto faz regenerar sentimentos adormecidos no homem, pondo-o como instrumento estético em conjunção do geral e do particular, entre o transitório e o permanente, entre o físico e o metafísico. Equilibrando antagonismos com a sábia inflexão dos pincéis, da voz que glorifica o som, das mãos que escrevem églogas e dos cinzéis que da pedra bruta fazem uma representação sensível, o artista demonstra criativamente a força da Estética na conformação da nobreza do caráter, porque razão e sensibilidade são o substrato do fazer artístico na criação e na formulação do objeto de arte. O verdadeiro feito da arte demanda o humano jogo das formas sensível e racional na recepção e convoca o fruidor a juízos. Por isso a arte pode ser instrumento de educação. No ato da contemplação, o fruidor conjuga o entendimento ao belo receber daquela, pondo-se em suspensão ao integrar-se amorosamente ao que vê. O que seria do mundo sem as categorias da arte? Um estoque de técnica e ciência reduzido a relações causais, preso à lógica das relações utilitárias. O mundo da cultura seria uma questão prática, de causa e efeito apenas, como o é o da natureza. Mas, embora a natureza seja o grande modelo de beleza mimética e um mistério a ser constantemente desvendado pela razão científica, ela não é capaz de significar, ela não tem a autonomia do signo porque é só do homem a tarefa de criar representações, e a mais visceral de todas é a arte, feita de intelecção e sensibilidade, as matérias primas do ser. O que também individualiza Schiller na Alemanha do Século XVIII é sua capacidade de pensar multidisciplinarmente a arte, fazendo-a possibilidade analítica no sentido do julgamento ético da atitude histórica (Mary Stuart, Guilherme Tell, Joana D´Arc, A Conjuração de Fiesco, Dom Carlos) com personagens que, não poucas vezes, são postos em xeque entre o vício e a virtude. A constante tendência a amalgamar a criação literária com o exercício reflexivo da filosofia em Schiller resulta em sua Poesia Filosófica na pequena obra que mais se justifica como tratado do pensamento: A Educação Estética do Homem numa série de Cartas (Über die ästhetische Erziehung des Menschen in Eine von Briefe). Trata-se de um ensaio escrito de fevereiro a dezembro de 1793 na forma de cartas ao seu mecenas, o príncipe dinamarquês Friedrich Christian von Schleswig-Holstein-Sondenburg-Augustemburg, as Cartas de Augustemburg, como comumente conhecidas, são um registro de excelência para a pesquisa sobre o Romantismo e o Idealismo alemão, tal a sua característica de composição filosófico-literária. O hábito do texto confessional e epistolar vinha sendo objeto da investigação intelectual e revelou em 1782 um primor de invenção narrativa com a magnificência da obra francesa Les Liaisons Dangereuses, do jacobino Choderlos de Laclos. O girondino Schiller, enfraquecido com a febre fria mas maduro como dramaturgo e poeta, adota essa forma de escritura e, sob a influência de Kant, Schelling (1775/1854), dos sensualistas ingleses, especialmente o Conde de Shaftesbury (1671/1713), tendo sempre presente a escritura de Goethe (1749/1832), produz um tratado estético como confessional agradecimento intelectual ao príncipe que, o subsidiou nos difíceis últimos anos com uma pensão de mil táleres. Com isso conforma seu estudo literário-filosófico sobre a possibilidade da educação ética da humanidade fundamentada no recurso estético, pautado na lógica das relações entre o sujeito e toda a sua alteridade, intermediados pelo belo, escopo da obra de arte, instrumento que aprimora. Fica aqui dada a sua contribuição analítica sobre os temas em voga em seu tempo; a Estética e a Educação. Trata-se de um pequeno roteiro analítico em 27 cartas que vieram a converter-se em possibilidade de direcionamento do caráter para a grandeza do belo viver, da bela recepção do mundo, do belo responder aos fenômenos da existência. | |
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